sexta-feira, 3 de abril de 2020

Sabotage e seu compromisso com o rap

Diretamente da Zona Sul de São Paulo, Mauro Mateus dos Santos é até hoje o maior nome do rap nacional. Há 47 anos, Sabotage nascia sem imaginar o tamanho do seu legado. Foi rapper, compositor e ator. Suas músicas carregavam vivências de anos como morador de favela e ensinamentos do que é ter uma “vida loka” guiada pelo crime. Pra ele, rap sempre foi sobre compromisso.
Nasceu no dia 3 de abril de 1973. Cresceu na Zona Sul de São Paulo vivendo em várias favelas, como Vila da Paz, Boqueirão, mas principalmente na favela do Canão. Entrou para a vida do crime aos 8 anos de idade quando conseguiu seu primeiro emprego como olheiro do tráfico. A vida de quem cresce na miséria não é fácil. Muitos morrem, são presos ou sucumbem por não suportar uma realidade tão cruel. Sua mãe criou os três filhos sozinha e morreu vítima de um sistema público de saúde precário. Dos seus irmão, um morreu após fugir da prisão, outro se entregou ao álcool por não conseguir lidar com o pouco ou quase nada que a vida lhe oferecia.
Parte da adolescência de Sabotage foi como interno da FEBEM, antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor. Desde criança era conhecido como Maurinho e já apresentava paixão pela música. Costumava ter sempre um caderno em mãos onde quer que fosse para poder escrever suas letras. Ia bem nos estudos e dizia que tinha “síndrome de pensar”, mas só concluiu a 5ª série já adulto. Na favela do Canão, ele era querido, já na Vila da Paz era tido como um terrorista, pois foi assim mesmo que ele se intitulou. Era temido por ser o novo chefe do tráfico.


A vida no rap e nos cinemas
Começou a se inscrever em concursos de rap entre 1988 e 1989. Sua visibilidade no meio musical veio após participar de shows do grupo RZA (Rapaziada Zona Oeste) e depois de gravar vários clipes. “Rap é compromisso” foi o seu primeiro e único álbum gravado em estúdio, em 2000. Suas tranças espetadas deixavam a marca de um grande rapper que logo veio a estourar mostrando em rimas e versos o que era a realidade.


Sabotage - Foto: reprodução da internet



Fora do universo musical, Sabotage também teve grande destaque ao atuar em dois filmes. Em “O Invasor”, de Beto Brant (2002), atuou como ele mesmo, foi consultor sobre a cultura da periferia e teve participação em cinco músicas da trilha sonora. Em “Carandiru”, Hector Babenco (2003), seu personagem era o “Fuinha” e também teve uma música gravada para a trilha sonora do filme. Em 2002, ganhou o prêmio de hip-hop brasileiro Hutúz.
Maurinho foi substituído por Sabotage quando ele passou a se apresentar em clubes e casas de show e largou a tal “vida loka” pela música. Mesmo frequentando festas chiques e hotéis cinco estrelas, Sabotage permanecia na favela. Foi uma felicidade conseguir colocar um chuveiro elétrico em sua casa. O rapper ouvia um pouco de tudo: Barry White, Pixinguinha, Tom Jobim, Afrika Bambaata, Chico Buarque, Sepultura. Toda essa bagagem musical influenciou o rapper para que pudesse inspirar jovens e adultos de todas as gerações, além de artistas que o consideram uma das maiores vozes do rap nacional de todos os tempos.


O fim de um dos maiores nomes do rap nacional
Sabotage teve uma breve passagem na cena, mas consideravelmente importante. Sua trajetória foi interrompida no dia 24 de janeiro de 2003 quando voltava para casa após deixar sua esposa, Maria Dalva da Rocha Viana, no trabalho. O rapper foi alvejado com quatro tiros por volta das 05h30, na Avenida Professor Abraão de Morais, em São Paulo. Aos 29 anos de idade, ele deixou três filhos, sendo Wanderson e Tamires filhos da atual esposa, e Larissa, que vive com a mãe na Zona Leste de São Paulo.
O motivo da sua morte é incerto. A esposa e amigos de Sabotage diziam que ele já não fazia mais parte do tráfico há muitos anos. Desde então, seu foco estava na música, em poder passar sua mensagem e história através de seus versos livres. Trabalhava em parcerias e outras produções. Inclusive, um dia após o seu assassinato ele deveria estar no Fórum Social Mundial em Porto Alegre para se encontrar com movimentos sociais de todas as partes do mundo. Certamente, seria um momento importantíssimo em sua carreira!

Obras póstumas
Em 2013, o ativista e escritor Toni C. lançou a biografia do rapper intitulada “Um bom lugar”. O livro conta com o apoio da família e metade da renda dos exemplares vendidos é destinada a eles.
Em 2015, houve o lançamento do documentário dirigido por Ivan 13P "Sabotage: Maestro do Canão", com depoimentos de artistas e cenas de arquivo da sua vida. No longa-metragem, Sabotage fala sobre vários aspectos que vão desde a infância até sua visão de futuro.

Documentário Sabotage: Maestro do Canão - Foto: reprodução da internet



Em 2016, 13 anos após sua morte, houve o lançamento do seu álbum póstumo com onze faixas. O álbum conta com participações de Tropkillaz, Instituto, Negra Li, Ganjaman, Rappin’Hood, Fernandinho Beat Box, BNegão, Céu, Dexter, entre outros.
Este ano, a websérie #SabotageVive foi lançada no YouTube. O projeto é fruto dos seus filhos Tamires e Sabotinha para exaltar o legado do pai. São oito episódios que misturam registros das gravações do DVD ao vivo de Sabotage, em 2002, no Píer Mauá, com apresentações dos filhos.

Referências
Pensador
Uai
Esquerda Diário
BQNDE
Hypeness 
TMDQA

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